lembro-me de um amigo da UnB queixando-se de perseguições que sofreu por sua posição política. gordo, era referido com deboche pelo pessoal de esquerda que em sua época de graduação dominava os espaços acadêmicos.
esse amigo, além de brilhante do ponto de vista científico, também sempre foi corajoso e honesto. discutiu muito com seus detratores, tentava permanecer no âmbito do mérito das discussões. ao que parece, um dia viu que estava apenas a dar murros em ponta de faca.
antes de sair, foi expulso do grupo chefiado por um desses nomões do direito pátrio, um dos pouco que se intitulada de esquerda.
o cara é de esquerda e um idiota.
vejam, estou a falar de um amigo, com o qual sempre discuti bastante. ele enfrentou os que os perseguiam e não abriu mão do espaço.
sofrer chacota diariamente, contudo, é foda. não tem a ver com maturidade. você acaba por perseguir mecanismos para se proteger. não faz nada bem.
perseguir tem a ver com um marchar constante com o intuito de castigar, atormentar, transtornar.
não se persegue por diletantismo.
transtornar. bela palavra. não é apenas “se tornar”, o que já dá uma ideia de “trans”. é trans-tornar.
ouço aqui e ali vozes dos meus amigos da imprensa, dos meus amigos da academia, vozes que falam sobre perseguição ou de medo de perseguição em função de suas posições políticas contrárias ao golpe.
jornalistas, funcionários e professores de várias universidades, em especial aqueles não titulares, não podem gritar às claras
“É GOLPE!!”
nas universidades, as possibilidades de retaliações são incontáveis, sendo exigências burocráticas absurdas, o corte de verbas para pesquisa e o confinamento a matérias de nenhum interesse aos retaliados as mais comuns.
jornalistas são orientados a seguir a linha dura do jornal. do contrário, ou se manda alguém para as geladeiras da vida ou se manda embora.
normal? nem tanto. os jornalistas, os editores, deveriam também pautar. mas quem pauta são os patrões. quem julga livre a imprensa brasileira desconhece-a, para dizer o mínimo.
as recentes reportagens com um tom um pouquinho, bem pouquinho, mais crítico à novadministração têm a ver com a recepção internacional do golpe, tanto dos países quanto dos media estrangeiros.
a repercussão internacional dá um certo respaldo nesses dias aos que não concordaram com o golpe, em especial àqueles da imprensa.
vislumbro (esse verbo quase sempre usado erroneamente pelos juristas) como pode ter sido o período de ditadura militar. os assuntos políticos e a latente falta de legitimidade de uma administração perseguem a todos, em todos os instantes.
não se pode, no entanto, falar sobre isso em vários ambientes. é a receita para traumas: os transtornos que perseguem nem podem ser ditos.
mas, ainda assim, aqui e ali, ouvem-se sons murmurados, espremidos, como palavras ditas durante o sono, esses vicerais, impulsivos, como as barrigas que roncam mesmo sem que assim queiramos.
“GOLPISTA”, ao que parece, é uma palavra que perseguirá para sempre Temer (as palavras também perseguem), o tenebroso que nos transtorna.