delírios

ser contra um golpe de estado é muito diferente de concordar com as ações do governo que foi golpeado.

os governos do partido dos trabalhadores (PT) foram, em muitos aspectos, parecidos com os de seus antecessores, em especial com aqueles de FFHH, do PSDB.

é risível, nesse sentido, os estereótipos formados por muitos que apóiam o atual golpe.

na cabeça deles, o PT foi um governo de ultra-esquerda que esmagou a livre iniciativa no Brasil, fez uma ultra reforma agrária e taxou os ricos.

na cabeça deles, a política externa de Lula e Dilma foi bolivariana, como se eles houvessem se aliados apenas a estados de ideologias similares. é uma simplificação absurda.

os governos do PT foram grandes amigos dos EUA, além de extremamente pragmáticos em relação ao continente com mais oportunidades de negócio, a África. a China, a maior parceira comercial, terá de continuar assim sendo.

os comentários dos aliados ao golpe, em especial de José Serra, nada mais são que bravatas, essa palavra também adorada pelos tucanos.

isso sem falar, também, no delírio que é achar que o PT inventou ou sistematizou a corrupção no Brasil.

às vezes acho, sinceramente, que estamos num grande delírio coletivo, em que assistimos bestializados um golpe ou a um golpe, dependendo de onde você estiver.

 

O sétimo

Há sétimos para todas as missas, nessa ladainha rezada com chavões comteanos. se esse é o sétimo dia, o réquiem para a democracia parece tocar sufocado, esmagado. nossa penitência parece ser longa. Parece que iremos jogar xadrez com pastores e enternados afrancezados, até que esses selos tucanos derretam-se nos sete ministros envolvidos com operações da pf.

MinC

Temer, o tenebroso, parece ter errado muito ao extinguir o Ministério da Cultura. A retórica boba da diminuição do Estado com corte de ministérios convence a poucos.

Parece a mim claro que os ministérios extinguidos farão com que temas ora centrais passem a ocupar a gaveta do Estado. Gaveta, essa palavra cara aos tucanos.

Vejo e recebo diversas mobilizações dos artistas. É provável que participe de um protesto junto dessa galera.

O grande tchan dos artistas é a repercussão de suas opiniões. não é todo dia que um golpe de Estado é denunciado em Cannes. O filme de Mendonça, Aquarius, parece estar nessa era da novadministração , talvez um tempo em que florescerão cada vez mais protestos, como trepadeiras políticas (a palavra que me veio foi hera, mas ficaria mal no parágrafo).

Trepadeiras que trepem em todos os buracos dessa administração e virem orquídeas trepadeiras, tipo baunilha. Trepadeira. Bela palavra.

Quem sabe? Trepadeiras subindo em Temer, o tenebroso, até asfixiar sua administração, protestantes, não parasitas, que asfixiem.

 

perseguições

lembro-me de um amigo da UnB queixando-se de perseguições que sofreu por sua posição política. gordo, era referido com deboche pelo pessoal de esquerda que em sua época de graduação dominava os espaços acadêmicos.

esse amigo, além de brilhante do ponto de vista científico, também sempre foi corajoso e honesto. discutiu muito com seus detratores, tentava permanecer no âmbito do mérito das discussões. ao que parece, um dia viu que estava apenas a dar murros em ponta de faca.

antes de sair, foi expulso do grupo chefiado por um desses nomões do direito pátrio, um dos pouco que se intitulada de esquerda.

o cara é de esquerda e um idiota.

vejam, estou a falar de um amigo, com o qual sempre discuti bastante. ele enfrentou os que os perseguiam e não abriu mão do espaço.

sofrer chacota diariamente, contudo, é foda. não tem a ver com maturidade. você acaba por perseguir mecanismos para se proteger. não faz nada bem.

perseguir tem a ver com um marchar constante com o intuito de castigar, atormentar, transtornar.

não se persegue por diletantismo.

transtornar. bela palavra. não é apenas “se tornar”, o que já dá uma ideia de “trans”. é trans-tornar.

ouço aqui e ali vozes dos meus amigos da imprensa, dos meus amigos da academia, vozes que falam sobre perseguição ou de medo de perseguição em função de suas posições políticas contrárias ao golpe.

jornalistas, funcionários e professores de várias universidades, em especial aqueles não titulares, não podem gritar às claras

“É GOLPE!!”

nas universidades, as possibilidades de retaliações são incontáveis, sendo exigências burocráticas absurdas, o corte de verbas para pesquisa e o confinamento a matérias  de nenhum interesse aos retaliados as mais comuns.

jornalistas são orientados a seguir a linha dura do jornal. do contrário, ou se manda alguém para as geladeiras da vida ou se manda embora.

normal? nem tanto. os jornalistas, os editores, deveriam também pautar. mas quem pauta são os patrões. quem julga livre a imprensa brasileira desconhece-a, para dizer o mínimo.

as recentes reportagens com um tom um pouquinho, bem pouquinho, mais crítico à novadministração têm a ver com a recepção internacional do golpe, tanto dos países quanto dos media estrangeiros.

a repercussão internacional dá um certo respaldo nesses dias aos que não concordaram com o golpe, em especial àqueles da imprensa.

vislumbro (esse verbo quase sempre usado erroneamente pelos juristas) como pode ter sido o período de ditadura militar. os assuntos políticos e a latente falta de legitimidade de uma administração perseguem a todos, em todos os instantes.

não se pode, no entanto, falar sobre isso em vários ambientes. é a receita para traumas: os transtornos que perseguem nem podem ser ditos.

mas, ainda assim, aqui e ali, ouvem-se sons murmurados, espremidos, como palavras ditas durante o sono, esses vicerais, impulsivos, como as barrigas que roncam mesmo sem que assim queiramos.

“GOLPISTA”, ao que parece, é uma palavra que perseguirá para sempre Temer (as palavras também perseguem), o tenebroso que nos transtorna.

 

umas panelas

 

Ontem, surpreso, ouvi panelas a bater no momento em que Temer falava na tevê. Infelizmente, as panelas não foram em razão das declarações de Alexandre de Moraes, o chefinho da pasta da justiça e cidadania (?) da administração federal.

Alexandre de Moraes é, como esperado, o novchamariz da novadministração.

Antes de tudo, há que se dizer que o maior problema não reside exatamente nas políticas antidemocráticas ou nas pretensamente liberais que atendem aos donos do poder e da grana que serão adotadas. É a falta de respaldo no voto, na disputa política democrática, que a adoção de medidas tais deveria ter. A administração golpista de Temer, portanto, não o tem.

Em política, dificilmente os senões e intenções são claros. As ditaduras não afirmam, geralmente, algo como “estamos a torturar dissidentes barbudos” ou “sequestramos os bebês dos opositores”.

Não. Mesmo as ditaduras defendem em arroubos e eloquências as bases e conquistas democráticas e o povo.

Ditadores, no entanto, assim como nós quando flertamos, mandam recadinhos cheios de intenções. Não se diz nada, mas se quer dizer muito.

Em entrevista à Folha de S. Paulo (aqui), Moraes quis dizer várias coisas. Entre elas, que reverá demarcações de terras indígenas, que não há problema em haver ministros cisbrancos envolvidos na Lava Jato.

Vou falar de uma ou três coisas sobre suas declarações.

1. Moraes quis dizer que os movimentos sociais serão apenados se protestarem. Disse que nos protestos em São Paulo a polícia não é abusiva.

Sei.

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Deve ter confundido “São Paulo” com “Paris”, como é comum aos tucanos (ps: a polícia de Paris, a de Paris mesmo, não é a polícia de Paris dos Tucanos).

Eu mesmo já apanhei duas vezes da polícia do PSDB.

O ápice de sua entrevista é a seguinte afirmação:

“Ou seja, nenhum direito é absoluto. Manifestação em estrada que queime pneus, que por tempo não razoável impeça a circulação [de veículos], não é permitido”.

“Nenhum direito é absoluto” é uma frase comparável a horrorosas como “não tenho preconceito, mas…” ou “nada contra gays, mas…”.

Dessas que se nota tanto nas pessoas de direita, quanto nas de esquerda, quanto nas do centrão e nas golpistas.

Dando uma de jurista, discordo da afirmação de Moraes no sentido de que manifestações devem avisar os órgãos públicos que ocorrerão. Não há qualquer previsão constitucional ou legal sobre isso.

Manifestação pode ser completamente espontânea e não há prazo de duração. Manifestações não podem apenas ocorrer em lugares e hora em que uma já houver sido marcada

2. Moraes quis dizer que o MP paulista não tem nada a ver com o PSDB. Como diz o outro, o bom peixe morre pela boca. Se lermos bem maldosamente a seguinte passagem, podemos entender que ele diz que a atual administração federal é menos honesta que o governo paulista:

“A única diferença em relação ao governo federal é que o governo de SP é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalos”.

3. Moraes botou uma pressão no Ministério Público ao afirmar que a administração central não é obrigada a seguir o escolhido pelo MP para sua chefia. Quis dizer que quem manda agora não são os que querem investigar.

Uai, pois nenhum direito é absoluto, certo?

A quem acreditava que a novadministração iria varrer a corrupção com sua vassourinha, parece desse vassourinhal não sai vassoura não.

 

-=-

Ps: eu não sei por qual motivo o último post, intitulado “a ressaca”, saiu hoje e não ontem. Devo ter me confundido e programado a publicação erroneamente.

 

 

 

a ressaca

primeiro domingo sob a novadministração interina, depois dum sábado recheado de festas para todos os olfatos, cheiros e faros, depois de um post sobre o mar e as marés.

parecia o dia ideal para uma ressaca.

pensei que veria as pessoas se entreolhando e se abraçando contritas, trituradas, arrependidas por terem apoiado um golpe, por verem a novadministração a se plasmar com gêneros e cores bem fixados, aqueles típicos dos que querem um status quo inerte, tristemente domingueiro. Gêneros e cores que cheiram a corrupção, duma administração que é a corruptela de um governo.

esse domingo, no entanto, seguiu a fiar com sua roca bocejos e linho de ir à missa, signos de nossas vidinhas iguaizinhas e medionas.

o domingo, pensando bem, não é tão primo assim da ressaca. Domingo é constante, uniforme, inofensivo, domingo é uma missa baixa. A ressaca é essa que incomoda, incomoda nossas cabeças e estômagos, incomoda as pedras e gentes do litoral. Os domingos esbarram nas nossas ressacas só por vir após os sábados.

o gosto na boca dos que passaram por esse domingo parece não ser esse que sinto, esse que aperta a boca, esse que não molha nem a palavra, nem as amargas. Esse gosto que cheira mal.

 

nsebastião

Ele sempre volta, talvez porque a maré portuguesa, essa do mar portuguez salgado, sempre volte e revolte. O messias volta e revolta, o sol volta e revolta, a chuva volta e revolta, ela ou ele volta e revolta. Rola assim pra gente. Ninguém se volve, ninguém se desenvolve, ninguém se desdobra, pois o que vai, até o dia bom, volta.

O mito da união nacional é, ao lado dos ladrilhos e da cara de pau, uma das mais gloriosas de nossa herança portuguesa.

Sebastião já voltou muitas vezes.

Temer, o tenebroso, é só o novo regressante que revolta.

 

O novministeriado

ministerio - temer - 12 - 05 - 2016

 

Temer ditou o novlema da administração Federal para “Ordem e Progresso”. Não mais “Pátria Educadora” ou “Um país de todos”. Não. Agora, o velho e ridículo lema positivista de Comte é que move slogadariamente a novadministração.

Outra das notícias da administração Temer teve a ver ontem com os novos ministros.

São, sem exceção, homens brancos, sete dos quais envolvidos na Operação Lava Jato. Sete.

Como intelectual, tento evitar ao máximo adjetivações desnecessárias. No entanto, essa administração cheira a café com leite. Gente que acha que as criadas, de preferência negras, devem servir a eles os cafés e os leites, quando não a seu serviço sexual.

Cheira a uma constelação digna de uma Republiqueta que constrói privilégios aos mais apossados e deixa a ralé lá mesmo, no ralo.

Para um jurista paulista, portanto cevado de São Paulo, a observação de Alexandre de Moraes como Ministro da Justiça arrepia, no pior sentido da palavra.

Moraes não defende nenhuma bandeira, a não ser aquela vaga, a de uma ordem constitucional.

Escritor de um manual de direito constitucional manualesco, Moraes é um senhor com pouquíssimo apreço aos movimentos sociais, sendo um desses nomões do direito que usam o direito e seu nomão da forma como querem para que velhos privilégios sejam mantidos.

É uma pena que a USP ainda tenha em seus quadros tantas pessoas irrelevantes do ponto de vista acadêmico, mas com grande projeção no mundo político. No fundo, pouco importa a irrelevância acadêmica, mas o problema é o uso que se faz, o verniz de autoridade no assunto que um cargo na USP proporciona.

Segue Moraes, infelizmente, as sinas de Miguel Reale pai e Miguel Reale filho, no sentido de apoiar os mais excludentes e ditatoriais movimentos políticos do Brasil. Isso não quer dizer, por óbvio, que não haja uspianos mais comprometidos com a democracia.

A polícia de São Paulo, a polícia de Moraes, mata. A polícia de São Paulo, a polícia de Moraes, bate em professores, protestantes e alunos, mas protege ladrões de merendas e de remédios. O Ministério Público de São Paulo é, via de regra, zeloso em relação aos malfeitos do PSDB, partido que comanda há tanto tempo essa capitania.

O Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos será extinto. Ele será fundido com o da Justiça, esse mesmo, a ser comandado por Moraes. É ele quem dará rumos a políticas públicas relativas aos direitos de populações marginalizadas.

Essa é a novadministração que se pretende ordeira e progressista, que diz atuar contra a corrupção.

Temer, o tenebroso.

 

O dia do golpe

Hoje, quinta-feira, 12 de maio de 2016, inicia-se a administração Temer. Escrevo poucas horas após a votação no Senado Federal que afastou a Presidenta Dilma Rousseff e conduziu o Sr. Temer à chefia do Executivo brasileiro.

Procurarei aqui dar minhas impressões pessoais diárias a respeito do que se passou e passará.