sobre a homofobia

um amigo chamou-me a atenção para as mensagens do tenebroso novadministrador interino relativas ao atentado numa boate gay em orlando, FL, EUA.

Compare-as com os de Dilma.

a grande diferença?

o preconceito. o reconhecimento, mais do que banal, de que o crime na boate em orlando foi movido pela intolerância e que temos de lutar contra isso.

temer, o tenebroso, parece ter sido pressionado por religiosos para que o termo “homofobia” fosse excluído, segundo me contam.

quer dizer que, num momento grave como esse, a questão política mais importante, a discussão que realmente importa para nós, é deixada de lado.

no fundo, é um ato político fortíssimo esse silêncio. temer expressa uma “solidariedade” cínica e covarde.

é medroso, é preconceituoso, é desarrojado, é preconceituoso esse silenciar.

apenas uma nota pessoal: estive numa cidade em que muitas pessoas vão para festejar, se acabar, também no sul dos EUA, alguns dias antes da tragédia.

eu e minha insônia fomos apenas a maravilhosos clubes de jazz (lê-se jáss), raramente acompanhados de álcool.

num dia de estremo calor, quis tomar uma cerveja local. estive em um bar gay na bourbon street. era aquele também um alvo perfeito.

por acaso, tirei uma foto do bar.

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 ah, o obtuário ficará para amanhã.

pré-obtuário

estou com problemas com o wordpress ao usar o tablete. havia redigido um obtuário, seguindo o delicioso artigo da economist. fica pra amanhã.

 

gilmar e temer

eu acho massa quando os nomes rimam.

não acredito nem no acaso nem no destino.

mas coincidência não pode ser. nem plano de ninguém.

achei que gilmar entraria de cabeça no governo temer, achei que seria o interino ministro provisório da justiça, cheio de pautas-bomba.

é provável que fosse bem como interino ministro provisório da justiça, diga-se. as notícias que me chegam é que gilmar fez um bom trabalho no cnj.

o problema seria apenas saber quais os rumos, quais as prioridades e políticas a serem realizadas.

bom, mas o fato é que gilmar pulou fora. fica jogando charme pra temer e portando-se como porta-voz e porta-estandarte da novadministração no supremo.

é provável que esteja à espreita para o próximo governo, ganhando força agora, sem se perfilar oficialmente com os golpistas.

hm. será que rimam mesmo? fale várias vezes temer-r; gilmar-r.

de pessoas assim temos de ter cautela. pode ser que gilmar daqui a pouco pegue briga e dê nas malas.

a perda da democracia

é um golpe estranho, talvez por isso toda as adjetivações – golpe frio, golpe brando etc.

as manifestações de ontem, por todo o brasil, ocorreram, em termos gerais, de maneira normal, como se uma democracia, não uma temocracia, fosse.

há formas de se ler isso. uma apontaria  que a novadministração é formada por civis, simpáticos à democracia e à constituição de 88.

ou, a que mais me parece razoável, é a de que o país chegou a tal ponto que administrações que reprimam a existência de protestos não vingam.

assim, não há que se ter a liberdade como dádiva de uma administração golpista, mas como conquista, inclusive institucional, da história política brasileira.

as duas podem ser ingênuas.

os militares podem estar de butuca a espreitar a nós, talvez inclusive a este magro blog.

 

a política por acidente?

às vezes, a política dá na gente.

“ativistas por acaso”, como o livro que leio, “accidental activists”, uns diriam. artistas, cientistas, estudantes, etc. entram no que há de político ao ver que, se não o fizerem, ou a coisa nunca vai mudar, ou vai piorar.

pense nas mães da praça de maio.

dizer que há ativistas “por acidente”, “por acaso”, é bobagem. é imaginar que há setores organizados politicamente por natureza, politicamente inatos e outros, não.

não estou entre os que acreditam que tudo pode ser resumido à política.

o amor não pode. o direito não pode. a célula não pode.

ainda assim, há momentos em que a política dá na gente mesmo.

e a gente vira, dá nela.

o alienista

peço desculpas por não ter escrito ontem. quase não tive internet nos aeroportos em que fiquei quase 24 horas. quase escrevi, é verdade.

bom, fui ter com machado no avião. deu na telha de reler “o alienista”.

no raso, os personagens da república de hoje parecem-se muito c’aqueles descritos na itaguaí.

poderia ficar uns parágrafos fazendo comparações engraçadinhas.

o sábio que se acha acima do bem e do mal e faz as coisas em prol da ciência, no entanto, parece ser o caso do autor, seu “caso de matraca”, por assim dizer.

lembrei-me muito de um certo ministo do STF, outrora meu professor. A diferença é que neste caso, o homem das leis, que diz que nada deve influenciar o direito, que julga tecnicamente, friamente, calculadamente, meticulosamente, sabiamente, virtuosamente, adestradamente e tal, muda de posição conforme a posição do querelante, se próximo d’el-rei (ou d’los-reies) ou não.

os Crispins Soares, esses que nunca fazem reproches, como vemos, parece que não acabarão também. hehe.

the plantation tour

é a coisa de se viver fora.

por mais que se leia o jornal e o outro e o outro jornal, você acaba por se afastar um pouco das coisas que acontecem no seu país.

acho que não ter a ver com os olhos e ouvidos, mas com os narizes e as línguas. os cheiros, descheiros, gostos, desgostos, temperos e destemperos parecem trazer-nos para o mundo que estamos.

como aconteceu com a alemanha, passo a olhar como são semelhantes nossos hábitos com os dos estrangeiros.

ao notar o descaso com os escravizados por parte dos donos das fazendas, ao notar a falta de opção do povo negro a não ser voltar à fazenda após a guerra civil, ao ver que aqueles mesmos donos das fazendas continuaram a escravizar pessoas através de dívidas, ao ver que os guias das plantation tours parecem absolver de certa forma os senhores, não há como não se pensar na região racista, desigual e baseada na agricultura que cresci, nas fazendas que passei minha vida toda, nas casas dos empregados e nas casas dos não empregados.

na minha região, no entanto, o período escravocrata não é mencionado, o que nos torna ainda mais perversos.

é apenas agora uma nota de rodapé: não sei por que Drummond não sai de minha cabeça.

ficou à minha volta hoje, enquanto andava por uma então plantation então creole, crioula:

vasto mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, vasto,mundo, vasto, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto, vasto,vasto,vasto,mundo, moribundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, moribundo, vasto, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo. vasto.

A diferença é que nunca pensei em solução alguma.

Bem, mas isso ficou no poema de hoje.

brasileiros no exterior

adivinha qual é papo? direito, claro.

em nova orleans, vendo pessoas que conheci em minhas andanças pelo mundo, acho que a percepção deles em relação ao golpe é das mais problemáticas, tomando em conta tanto os seus apoiadores quanto seus detratores.

é sufocante a sensação de estar em outro país, quando no seu tudo pega fogo.

lembro-me que foi assim durante os protestos de 2013 comigo.

a cidade, no entanto, nos convida para dar algumas voltas mais.

Trumpismo

O estabelecimento da agenda de nossas conversas e mentes é o das coisas mais admiráveis de nossos tempos.  
No aviao, estava a reler uma new yorker velha. é impressionante – ouve-se a todo momento falarem as pessoas sobre trump.  

Penso no que vou trazer dos eua, nessa viagem um tanto inconsequente que fiz, a gastar um dinheiro grande para minha tarefa acadêmica,  visto que o dinheiro para congressos secou. 

Penso nas crianças que ficaram, muito. 

Penso nos romances que começaram em filas de check in.  

Penso em como o racismo é diferente nos EUA, em como os negros aqui conquistaram tantas coisas mais. 

Em como as piadinhas sem graça fazem parte do cotidiano dessa galera, diferentemente do que vi na Alemanha. 

Isso é um diário. 

A agenda da minha cabeca é foda. 

Penso na relacao entre trump e temer. Vejo que há o t, o m e o r. Acho engraçado que o que escrevi quase faz “temor” e que, embaralhando, desedesenhando as letras e imaginando um pouco, pode-se pensar no nome de um a virar o do outro, nos dois transando vestidos de romeu e julieta, nas fanfarronices dos dois, naquele que fica às sombras brincando de sério, naquele que vai à tv botar tudo a foder, que pede a prisão da oponente. 

O que comprar: moedor de sal, hd externo.