ligando os pontos

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a recente pesquisa datafolha choca bastante. foi uma manipulação escancarada, reconhecida até mesmo pelo ombudsman da folha – esse parece ser mais crítico ao jornal que a passada, diga-se, pois ela insinuava ser a tese de golpe delírio ou coisa de “militante” (haha), bem como o jornal pensa. a ver.

o que mais anda a me impressionar, no entanto, é a tentativa de parecer que o congresso nacional, bem como o executivo, voltaram a uma tal de “normalidade”, especialmente após a eleição de maia para a presidência da câmara.

essa era a pauta de um programa da globonews (veja aqui), com waack, que comecei a ver outro dia. é a pauta dos jornais, de artigos. é a pax tenebrosa de temer, o tenebroso (aqui)

impressiona-me também como é tratada com absoluta normalidade o fim, ou melhor, a programação para o fim da lava-jato.

a normalidade, então, teria a ver com discursos conservadores, com privatizações sem sentido, com aniquilação de conquistas dos trabalhadores. a normalidade é a calma, a manutenção de um bando de coisa errada, vinda de uma galera que não entende que ela própria pode ganhar grana se todos melhorarem de condição.

é o que me dá mais raiva, no fundo. o pobre não é apenas pobre, ele parece ser para boa camada da população menosprezível, portanto moralmente indigno de muitas coisas. ele teria mesmo é que morar longe, que comer mal, que ganhar pouco, que ter o filho preso, que se fuder na vida para essa gente.

a normalidade seria o golpe.

seu cu.

há novidades. há resistência.

normalidade, “ordem e progresso” é o caralho.

gostaria que estive 100% certa eleonora de lucena, na folha de hoje:

“A novidade vem da energia das ruas, das ocupações, dos gritos de “Fora, Temer!”. Não vai ser um passeio a retirada de direitos e de perspectiva de futuro. Milhões saborearam um naco de vida melhor. Nem a “teologia da prosperidade” talvez segure o rojão. A velha luta de classes está escrachada nas esquinas.”

não vai ser um passeio, mas não vai mesmo. contudo, a energia das ruas não é só essa. há também um refluxo conservador que pede a morte do estilo dos que saborearam um naco de vida melhor.

ps: a atitude da galera do aparelhamento é louvável, espero que o leilão tenha sido bom.

as metades

sempre quando se fala em metades, vem aquela música das metades da laranja.

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Metade dos brasileiros seria contra os jogos do rio, segundo o datafolha.

Metade, portanto, não se oporiam.

 

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metade dos brasileiros, HOJE, diferentemente do que era alguns meses antes (vê aqui), querem a permanência de temer, o tenebroso.

metade não o querem ou não afirmam que querem.

por que as metades, no entanto, são invertidas pela folha?

seria possível argumentar que a respostas afirmativas seriam as escolhidas, ou seja, aquelas que desconsideram os indecisos/indiferentes.

o problema aqui, no entanto, não é esse.

as democracias usam do curioso método de contar narizes para decidir o futuro em uma ocasião fundamental: eleições.

nas horas que sobram, seguem-se regras mais ou menos rígidas.

incontáveis são os casos de presidentes impopulares que governaram. fhc, do psdb, por exemplo, em especial durante o famigerado segundo mandato.

parece banal, mas não é. as manchetes querem levar-nos a crer que o polvo (sic) brasileiro apoiou e apoia o golpe. como se isso fosse legitimar o golpe.

se você conversar com um desses apoiadores da ditadura militar, vai ouvir a mesma coisa: que na época “todos” eram contra jango.

em primeiro lugar, isso não se aplica nem a jango, nem a dilma.

em segundo lugar, foda-se. democracia não é pautada pelas maiorias de ocasião.

de qualquer maneira, para constar:

nos dias golpistas: “Já o Ibope traz um cenário ainda mais negativo para Temer: apenas 8% da população preferia a solução que está sendo adotada, com impeachment de Dilma e Michel Temer presidente” (veja aqui).

por fim, levando-se em consideração que na triste época do golpe 25 por cento queriam que dilma continuasse (de novo aqui), eu poderia dizer que dilma subiu sete pontos percentuais, pois agora 32 por cento querem seu retorno. Contudo, isso seria algo grosseiro de minha parte, já que era outro instituto, outra base, outra metodologia.

não dá pra ficar bancando o observatório da imprensa toda hora. nem pra ficar manipulando números de maneira apressada, lendo da forma que nos convém, sem roteiro nenhum.

o foda é que muita gente assim o faz.

 

 

 

os golpes televisionados

vemos na turquia, tivemos que assistir no brasil, goela abaixo navalhada, sim, navalha.

as revoluções serão gravadas, sim, pelos revolucionários, mas não televisionadas. dos golpes, as televisões entendem.

Martial law was declared in Turkey, which has been convulsed by military takeovers at least three times in the past half-century. President Recep Tayyip Erdogan, the Islamist president who has dominated politics for more than a decade and sought to exert greater control over the armed forces, was forced to use his iPhone’s FaceTime app from an undisclosed location to broadcast messages beseeching the public to resist the coup attempt. (do NYT)

e mesmo os presidentes mais débeis, mas terríveis, também podem ser golpeados e, escondidos, usarem câmeras para o mundo.
é o golpe clássico, na turquia: armas, caças, caos. aqui, temos a leveza de um golpismo de uma tonelada.
se for sincero, penso muito em como istambul é linda, em como a mesquita azul é linda, em como as pessoas de lá são lindas.
em como turista é trouxa.
em quem irá às ruas por erdogan. quem, dos turcos que conheci dos protestos de 2013 em berlim, quem irá às ruas, quem irá morrer.

um quadro de rafael silveira

hoje é o dia de eleger o próximo cunha. os papéis que farão parecerão um quadro de rafael silveira, em que de cada pescoço sai uns mórbidos bichos, figuras que só parecem viver.

e a resistência ao golpe anda fraca, fraca, apesar de duas bombas que sairão nessa e na próxima semana.

há que se cuidar para que o fôlego não seja embebido de álcool, de uma figura nefasta que se afastou, mas que ainda é um retrato na parede, que ainda cunha sua garra em cada moeda, em cada troca parlamentar.

 

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briga de gente grande

Vi hoje a entrevista de serra, então recém empossado ministro provisório do governo interino do novadministrador.

é claro que ver serra tentando sorrir é sempre um presente aos que gostam de humor inglês à la monty python. o assunto aqui, todavia, infelizmente, desafortunadamente, é outro.

então, fora isso, isso de ele não conseguir sorrir, trata-se do novo mano da política externa brasileira, que não tem a menor ideia do que fala sobre política externa – veja o ridículo que passa ao dissertar sobre santiago dantas.

ele confessa que não manja nada de conselho de segurança da onu, aliás, meu objeto de estudo.

tudo bem.

eu também não entendo patavinas de futebol, mas não pleiteio comandar o palmeiras.

é absurdo demais o mano provisorinho da política externa brasileira não entender nada de segurança internacional.

ele trata o assunto como marginal, como de pouca importância, como se o brasil não fizesse parte do jogo.

pra foder tudo, la cosa é que o homem diz que não rola mudar nada por que é “briga de cachorro grande” – vê a partir do minuto 37.

bem, o brasil então deveria enfiar seu rabo de cachorro pequeno entre as pernas, certo? adoraria ver o que pensam outras pessoas na mesma posição, de outros países, ao se considerar irrelevante um país do tamanho do brasil.

espero que a olimpíada não dê um tapa na cara nossa, espero muito que não tenhamos de nos preocupar sobre o CSONU.

em tempo: há muitas medidas adotadas pelo brasil em função de resoluções do conselho de segurança. pergunte pra ele.

é o problema de se ter um pré-candidato num cargo tão importante. e ainda tem a pachorra de chamar de “populismo mundial” ou coisa assim o que o pt fez.

 

Antes da razão


A insurreição foi também um grito para largar qualquer ajuda estatal e fazer com que o próprio público sustente as peças e as estruturas completamente. 

Pode ser que dê certo com o teatro oficina de zé celso. 

Mas a cultura é ainda refém do estado. Qual o mal o estado promover, através de renúncia fiscal, a cultura?

Como conversamos com amigos, às vezes parecem a nós impensáveis, ridículos, certos discursos. 

O de que artista é vagabundo e corrupto é o novo absurdo promovido pela novadireita e pela novadministração. 

Insurreição, pelo que entendi, esse gozo de cultura, vem só, para o zé, apenas se há antes a agonia. 

sobre poemas

você só sabe que fala bem um idioma no momento em que consegue cometer erros conscientemente, fazer construções gramaticais ao arrepio da gramática, falar tudo meio errado assim memo por achar que a pureza gramatical, a gramática da tia sara, não consegue arranhar o sentido que se quer assoprar.

o poema é a negação da prosa gramatical. tem que ter um que de que se foda.

ASSINTONIA

Falta-me tristeza.
Instrumento mobilizador
Dos meus escritos.
Não há tragédia
À vista.
Nem lembranças
De tragédias passadas.
Nem dores no presente.
Lamentavelmente
Tudo anda bem.
Por isso
Andam mal
Os meus escritos.

esse poema, de temer, o tenebroso, é o retrato dele.

foda-se que é mau poeta, foda-se que não é lisboeta nem cego de um olho.

só os golpistas podem achar que escrevendo corretamente se chega ao poema, esse lugar sujinho e quente, molhado e seco, fogo e frio. golpistas, golpistas na veia, de terno, gravata e propinas não conseguem romper, atacar, golpear, arranhar poema.