the plantation tour

é a coisa de se viver fora.

por mais que se leia o jornal e o outro e o outro jornal, você acaba por se afastar um pouco das coisas que acontecem no seu país.

acho que não ter a ver com os olhos e ouvidos, mas com os narizes e as línguas. os cheiros, descheiros, gostos, desgostos, temperos e destemperos parecem trazer-nos para o mundo que estamos.

como aconteceu com a alemanha, passo a olhar como são semelhantes nossos hábitos com os dos estrangeiros.

ao notar o descaso com os escravizados por parte dos donos das fazendas, ao notar a falta de opção do povo negro a não ser voltar à fazenda após a guerra civil, ao ver que aqueles mesmos donos das fazendas continuaram a escravizar pessoas através de dívidas, ao ver que os guias das plantation tours parecem absolver de certa forma os senhores, não há como não se pensar na região racista, desigual e baseada na agricultura que cresci, nas fazendas que passei minha vida toda, nas casas dos empregados e nas casas dos não empregados.

na minha região, no entanto, o período escravocrata não é mencionado, o que nos torna ainda mais perversos.

é apenas agora uma nota de rodapé: não sei por que Drummond não sai de minha cabeça.

ficou à minha volta hoje, enquanto andava por uma então plantation então creole, crioula:

vasto mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, vasto,mundo, vasto, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto, vasto,vasto,vasto,mundo, moribundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo, mundo, mundo, moribundo, vasto, vasto mundo, mundo, mundo, vasto mundo. vasto.

A diferença é que nunca pensei em solução alguma.

Bem, mas isso ficou no poema de hoje.

brasileiros no exterior

adivinha qual é papo? direito, claro.

em nova orleans, vendo pessoas que conheci em minhas andanças pelo mundo, acho que a percepção deles em relação ao golpe é das mais problemáticas, tomando em conta tanto os seus apoiadores quanto seus detratores.

é sufocante a sensação de estar em outro país, quando no seu tudo pega fogo.

lembro-me que foi assim durante os protestos de 2013 comigo.

a cidade, no entanto, nos convida para dar algumas voltas mais.

Trumpismo

O estabelecimento da agenda de nossas conversas e mentes é o das coisas mais admiráveis de nossos tempos.  
No aviao, estava a reler uma new yorker velha. é impressionante – ouve-se a todo momento falarem as pessoas sobre trump.  

Penso no que vou trazer dos eua, nessa viagem um tanto inconsequente que fiz, a gastar um dinheiro grande para minha tarefa acadêmica,  visto que o dinheiro para congressos secou. 

Penso nas crianças que ficaram, muito. 

Penso nos romances que começaram em filas de check in.  

Penso em como o racismo é diferente nos EUA, em como os negros aqui conquistaram tantas coisas mais. 

Em como as piadinhas sem graça fazem parte do cotidiano dessa galera, diferentemente do que vi na Alemanha. 

Isso é um diário. 

A agenda da minha cabeca é foda. 

Penso na relacao entre trump e temer. Vejo que há o t, o m e o r. Acho engraçado que o que escrevi quase faz “temor” e que, embaralhando, desedesenhando as letras e imaginando um pouco, pode-se pensar no nome de um a virar o do outro, nos dois transando vestidos de romeu e julieta, nas fanfarronices dos dois, naquele que fica às sombras brincando de sério, naquele que vai à tv botar tudo a foder, que pede a prisão da oponente. 

O que comprar: moedor de sal, hd externo. 

Temer perdidinho. Nós, descarrilhados, desdestinados. 

 escrever é um contradestino, escrever é desnomear o nomeado, me diz a Paula Glenadel. 

Né bem assim não. Escrever é desgovernar, desnomear e desdestinar o que ainda não se escreveu ou que ainda não foi descrito. É um contrataque ao não visto, sim. 

Tem a ver sim com os desencantamentos e contramagias de nosso “des” e de nosso “contra”, de qualquer sorte. 

Desperdidos, desgovernados, descaminhados, estamos no Brasil, nossas vozes e nossas desescritas. 

A escalada de protestos

No dia em que deixo o Brasil – não sei se terei condições técnicas de compor, ou melhor, de publicar amanhã, penso no que ouvi hoje. 

A tese é a de que não se deve admirar que a direita conseguiu mobilizar muitos, já que sempre fez isso – think tanks, por exemplo, mostram que esses senhores têm o olhar lá na frente ao patrocinar pesquisas acadêmicas de qualidade e que coadunam com seus interesses econômicos. 

Pode ser. 

Sempre gostei de pensar que os intelectuais apenas raramente são mal intencionados, sendo que o uso de suas ideias por outros setores independe de suas vontades. Contudo, parece claro que o jogo científico depende de dinheiro, e é nas grandes empresas que ele se encontra. 

Fazer um think tank de esquerda parece ser um objetivo viável. Se ele ficar sob a alçada do estado, no entanto, está fadado ao insucesso. 

É, portanto, um desafio. Em momentos como o atual, não há foco entre os intelectuais quando o assunto é golpe. A ver. 

Ouvi também que os protestos da esquerda vão crescer. 

A ver. 

Na estrada

As recentes bobagens da novadministração fazem com que o improvável fique mais sólido. 

As notícias de que dois senadores votariam contra o impeachment são surpreendentes. 

A confiança em dilma subiu. 

Os arranjadores já arranjarão noticiário contra. 

Na estrada, no entanto, só se pensa em não morrer e em não tomar multas. 

sobre os discursos, ainda

interessante é dilma e josé eduardo cardozo posarem hoje de heróis da esquerda, após trocentos erros políticos básicos, incluindo não saber ouvir a quem hoje recorrem.

das cenas que mais me impressionaram ontem foram pessoas tirando selfies com cardozo, como se ele fosse um verdadeiro popstar, logo após dizer que era muito bom saber “estar do lado certo da história”.

sou cético e cínico demais pra ouvir isso e não me mal-humorar. primeiro, por que do lado certo que ele hoje acha que é lado certo não esteve o governo em muitas vezes. segundo, por não existir lado certo e errado, como se o julgamento fosse moral.

é claro que a democracia está sendo golpeada, mas enxergar no PT, em dilma, em lula, em cardozo etc.  mártires, soa como uma uma piada mal contada, dessas que a gente ri por perceber ter acabado, mas não vê graça, não entende, envergonha-se pelo contador.

Ps: postei ontem logo após o evento com dilma. o vídeo deveria ser outro, o de dilma a entrar no beijódromo da unb. acabou que ficou o vídeo do pessoal contra temer. ok. o vídeo desse amador tecnológico aqui, contudo, não foi gravado.

Nos sábados

Nos sábados a voz sobre o golpe se perde. 

Os vinhos e a música que fala sobre caracajus e sobre o gosto do batom que bate sorve às vezes a política. 

dá saudade de achar que não vivemos no estado de hoje.

Não sei por que saudade bate. deve ser por doer no sangue, tipo uma leucemia perpétua.

deve ser por isso que se morre de saudade.
mas não sei, ainda, por que se mata saudade. deve ser por ser a leucemia mortal.