a escrita contra o golpe

essa semana foi marcada pela visão e revisão de um texto que me que me deixou cego por alguns dias para outros.

a obcecação afetou, acho, até mesmo esse diário. A escrita torna-se difícil quando só se quer escrever.

espero acabar e publicar tal texto ainda hoje, votar meus olhos novamente à graça infinita, que terei de tentar começar a ler novamente.

os vazamentos

sim, é sim tipo um cano que estoura e fica escorrendo pela casa toda.

são os vazamentos, são os vazamentos de sérgio machado.

as goteiras do administração temer só fazem pingar. os vazamentos de conversas evidenciam, infelizmente, que passamos por um golpe arrastado por maltas de parasitas.

o que vaza mostra um arrastão de políticos em Brasília.

e o que fica (was bleibt) é uma angústia grande, tipo aquela que bate  depois de se lamber um sapo amarelo achando que iria dar barato, mas que nos leva em verdade a uma bad trip.

 

sim, uma vez sim, é sempre esse maldito sim que confirma que a democracia brasileira vaza pelos canos de uma política enferrujada.

Dois copo de cólera

As gravações de Romero Jucá, do PMDB-RR, então Senador licenciado por ter assumido o cargo de Ministro do Planejamento da administração Temer mostram, sem máscaras, sem intermediações, sem discursos empolados e sem vergonha, o golpe. 
Fico, sinceramente, triste pela certeza de estar vivenciando um golpe, como certos habitantes vivenciaram uma morte que se vinha anunciando. Triste também por ver que ainda há muitos que não querem sentir o óbvio, que não querem ouvir a música das esferas do PMDB e do PSDB, essa aí desde que o golpe é golpe.
A internet disse a mim que Jucá desenhou o golpe para todos entenderem: fim da Lava Jato, absolvição de todos com a benção do STF. Queda de Dilma como condição para tudo isso. É engraçado, mas incompleto. Antes de desenhar, Jucá, articulador central de Temer tenebroso, plasmou o golpe com o barro da desfaçatez de quem não precisa de democracia ou de Estado de Direito para fazer o que bem entender com o Estado.
Temer, esse que nos enerva, mantém a cara de pau típica dos que têm a burocracia jurídica ao seu lado, dos que sabem que, a depender dos julgadores e legisladores, tudo ficará como está, ainda que esses mesmos seres das leis tenham sido motivo de chacota por parte de Jucá.
Talvez, com o incerto que há nessa estranha palavra sem futuro (foda-se), a revolução não será televisionada, mas esse golpe, esse sim, está sendo bem televisionado. É um golpe que fica golpeando, é um golpe no gerúndio, que se arrasta, que fica gemendo e nos imolando. 
Dê-me esse segundo copo de golpe, esse que se escancarou com sorrisos amarelos hoje, pra nós beber curare, assim mesmo, dê-me o capiristicamente, sem essa merda de concordância de número, quero beber esse segundo e ver no seu fundo que o direito, no Brasil, está prestes a ser declarado imprestável. O que virá depois, é tarefa só pros raduans da vida imaginarem.

Outdoors 

Ainda sobre o leminha de Temer, o tenebroso, comentado aqui ontem. 

Agora, por todos os cantos vemos o tal mote de auto-ajuda temeriano. A cidade provinciana minha se encheu de mensagens positivas de uma ética do trabalho tão falsa quanto cínica. 

Eu me enchi foi de ódio (e de um tédio colérico)

É como se o problema fosse a falta de trabalho. 

Como se não se pensar em crise fosse algo bom e, o melhor, algo que descrisasse a crise. 

Como se pensar não fosse trabalho. Como se deixar de pensar não fosse trabalho. Como se trabalho fosse a antítese de crise. 

É ridículo. Deveriam grafar crise com z. 

Nunca deixei de ser oposição. Mas é verdade que as estupidezes dessa novadministração fazem aflorar, em terra de aquífero humilhado, uma intestinal fome de fazer ruído. 

No caso, de pixar em todos os outdoores: não trabalhe. a crise nos faz bem. deixe a crise nos crisar, nos embebedar, nos estraçalhar, nos renascer, nos tragar, nos nadadizar, nos aniquilar. 

Não pense em trabalho, crise

Crise bem que poderia ser um verbo. Seria massa poder usar toda vez que estivéssemos quase rompidos com nós mesmos. 

Os protestos contra Temer espalham-se pelo Brasil. O erro infantil de não ter indicado mulheres ou negros ou negras, junto ao fato de ter extinto um Ministério cuja existência coincide com o ano do fim da ditadura (1985 – para alguns, ainda ditadura) faz dele presa fácil. 

Vamos ver o fôlego dos protestos. O MinC, atendendo à minha faixa qua carreguei hoje pelo centro, voltou. 

Veremos se a crise crisará ainda mais a esquerda, que se mostra hoje crisada e, pra variar, rachada, diluída. 

A oposição crise/trabalho, no entanto, é para a próxima. 

 

delírios

ser contra um golpe de estado é muito diferente de concordar com as ações do governo que foi golpeado.

os governos do partido dos trabalhadores (PT) foram, em muitos aspectos, parecidos com os de seus antecessores, em especial com aqueles de FFHH, do PSDB.

é risível, nesse sentido, os estereótipos formados por muitos que apóiam o atual golpe.

na cabeça deles, o PT foi um governo de ultra-esquerda que esmagou a livre iniciativa no Brasil, fez uma ultra reforma agrária e taxou os ricos.

na cabeça deles, a política externa de Lula e Dilma foi bolivariana, como se eles houvessem se aliados apenas a estados de ideologias similares. é uma simplificação absurda.

os governos do PT foram grandes amigos dos EUA, além de extremamente pragmáticos em relação ao continente com mais oportunidades de negócio, a África. a China, a maior parceira comercial, terá de continuar assim sendo.

os comentários dos aliados ao golpe, em especial de José Serra, nada mais são que bravatas, essa palavra também adorada pelos tucanos.

isso sem falar, também, no delírio que é achar que o PT inventou ou sistematizou a corrupção no Brasil.

às vezes acho, sinceramente, que estamos num grande delírio coletivo, em que assistimos bestializados um golpe ou a um golpe, dependendo de onde você estiver.

 

O sétimo

Há sétimos para todas as missas, nessa ladainha rezada com chavões comteanos. se esse é o sétimo dia, o réquiem para a democracia parece tocar sufocado, esmagado. nossa penitência parece ser longa. Parece que iremos jogar xadrez com pastores e enternados afrancezados, até que esses selos tucanos derretam-se nos sete ministros envolvidos com operações da pf.

MinC

Temer, o tenebroso, parece ter errado muito ao extinguir o Ministério da Cultura. A retórica boba da diminuição do Estado com corte de ministérios convence a poucos.

Parece a mim claro que os ministérios extinguidos farão com que temas ora centrais passem a ocupar a gaveta do Estado. Gaveta, essa palavra cara aos tucanos.

Vejo e recebo diversas mobilizações dos artistas. É provável que participe de um protesto junto dessa galera.

O grande tchan dos artistas é a repercussão de suas opiniões. não é todo dia que um golpe de Estado é denunciado em Cannes. O filme de Mendonça, Aquarius, parece estar nessa era da novadministração , talvez um tempo em que florescerão cada vez mais protestos, como trepadeiras políticas (a palavra que me veio foi hera, mas ficaria mal no parágrafo).

Trepadeiras que trepem em todos os buracos dessa administração e virem orquídeas trepadeiras, tipo baunilha. Trepadeira. Bela palavra.

Quem sabe? Trepadeiras subindo em Temer, o tenebroso, até asfixiar sua administração, protestantes, não parasitas, que asfixiem.