Ontem, surpreso, ouvi panelas a bater no momento em que Temer falava na tevê. Infelizmente, as panelas não foram em razão das declarações de Alexandre de Moraes, o chefinho da pasta da justiça e cidadania (?) da administração federal.
Alexandre de Moraes é, como esperado, o novchamariz da novadministração.
Antes de tudo, há que se dizer que o maior problema não reside exatamente nas políticas antidemocráticas ou nas pretensamente liberais que atendem aos donos do poder e da grana que serão adotadas. É a falta de respaldo no voto, na disputa política democrática, que a adoção de medidas tais deveria ter. A administração golpista de Temer, portanto, não o tem.
Em política, dificilmente os senões e intenções são claros. As ditaduras não afirmam, geralmente, algo como “estamos a torturar dissidentes barbudos” ou “sequestramos os bebês dos opositores”.
Não. Mesmo as ditaduras defendem em arroubos e eloquências as bases e conquistas democráticas e o povo.
Ditadores, no entanto, assim como nós quando flertamos, mandam recadinhos cheios de intenções. Não se diz nada, mas se quer dizer muito.
Em entrevista à Folha de S. Paulo (aqui), Moraes quis dizer várias coisas. Entre elas, que reverá demarcações de terras indígenas, que não há problema em haver ministros cisbrancos envolvidos na Lava Jato.
Vou falar de uma ou três coisas sobre suas declarações.
1. Moraes quis dizer que os movimentos sociais serão apenados se protestarem. Disse que nos protestos em São Paulo a polícia não é abusiva.
Sei.

Deve ter confundido “São Paulo” com “Paris”, como é comum aos tucanos (ps: a polícia de Paris, a de Paris mesmo, não é a polícia de Paris dos Tucanos).
Eu mesmo já apanhei duas vezes da polícia do PSDB.
O ápice de sua entrevista é a seguinte afirmação:
“Ou seja, nenhum direito é absoluto. Manifestação em estrada que queime pneus, que por tempo não razoável impeça a circulação [de veículos], não é permitido”.
“Nenhum direito é absoluto” é uma frase comparável a horrorosas como “não tenho preconceito, mas…” ou “nada contra gays, mas…”.
Dessas que se nota tanto nas pessoas de direita, quanto nas de esquerda, quanto nas do centrão e nas golpistas.
Dando uma de jurista, discordo da afirmação de Moraes no sentido de que manifestações devem avisar os órgãos públicos que ocorrerão. Não há qualquer previsão constitucional ou legal sobre isso.
Manifestação pode ser completamente espontânea e não há prazo de duração. Manifestações não podem apenas ocorrer em lugares e hora em que uma já houver sido marcada
2. Moraes quis dizer que o MP paulista não tem nada a ver com o PSDB. Como diz o outro, o bom peixe morre pela boca. Se lermos bem maldosamente a seguinte passagem, podemos entender que ele diz que a atual administração federal é menos honesta que o governo paulista:
“A única diferença em relação ao governo federal é que o governo de SP é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalos”.
3. Moraes botou uma pressão no Ministério Público ao afirmar que a administração central não é obrigada a seguir o escolhido pelo MP para sua chefia. Quis dizer que quem manda agora não são os que querem investigar.
Uai, pois nenhum direito é absoluto, certo?
A quem acreditava que a novadministração iria varrer a corrupção com sua vassourinha, parece desse vassourinhal não sai vassoura não.
-=-
Ps: eu não sei por qual motivo o último post, intitulado “a ressaca”, saiu hoje e não ontem. Devo ter me confundido e programado a publicação erroneamente.